I. A. (IDENTIDADE ARTIFICIAL)
- Marcelo Massano

- 6 de jul.
- 3 min de leitura
O artifício de parecer inteiro

Muita gente responde "tudo bem" para não entrar em detalhe. Mantém a agenda cheia para não pensar que não está bem. Chama de foco aquilo que ajuda a fugir dos problemas. Sustenta uma imagem de controle porque acha que não pode cair — tudo para manter o trabalho, a família, a versão de homem que foi treinado para ser.
Nem sempre isso se baseia em mentiras: muitas vezes foi uma solução.
Ninguém atravessa a vida adulta sem alguma montagem — um jeito de circular, de ser levado a sério, de não dar trabalho. Personagem só vira problema quando sustentar o enredo se confunde com a própria vida.
O que chamo de artifício
Artifício não é a máscara óbvia, o disfarce, a mentira deslavada. É a resposta automática. O silêncio engolido porque não há tempo, nem clima, nem palavra para isso agora. É transformar cansaço em disciplina, solidão em independência, tesão em administração de risco. É a virilidade ensaiada de quem aprendeu que fraqueza tem preço — e o preço costuma ser o lugar que você ocupa.
Funciona por um bom tempo, aliás. Você trabalha, resolve, cuida do corpo, mantém as pontas atadas. Por fora, brilhando; por dentro, desabando. E ninguém percebe, porque a ficção, muitas vezes, já substituiu a realidade.
Zerar não é apagar
Zerar o artifício não é virar a sua "melhor versão", 24 horas por dia, divulgando isso aos quatro ventos. Essa fantasia de autenticidade e transparência total também cansa — e também é artifício, só que com roupa de sinceridade.
Zerar é outra coisa. É perceber quando um jeito de se defender vira prisão. Quando a coerência deixa de ser jeito de viver e vira checklist com treino, suplemento, terapia em dia, oito horas de sono — tudo isso que hoje tenta transformar a vida em prova de desempenho. É perguntar que personagem você aprendeu a sustentar, para quem, a que preço, e o que ficou de fora para essa versão "otimizada" continuar rodando sem travar.
A resposta não chega numa tarde. Às vezes, são as contradições que apontam para onde a vida ainda pode respirar.
Clínica, cena e cenário
Sou psicólogo clínico. Também sou roteirista há mais de vinte anos, e trabalhei como coordenador de intimidade: passei cerca de duas décadas pensando personagem, cena, exposição e o que fica de fora do enquadramento. Esse cruzamento importa: escuto sofrimento também como narrativa, como montagem, como resto.
A newsletter
O Zero de Artifício nasceu dessa escuta. É um espaço de ensaio — um jeito de olhar para os modos como a vida vai sendo montada, editada, defendida, empurrada para caber em personagens que um dia talvez tenham ajudado, mas que depois começam a cobrar caro. Na newsletter, escrevo sobre identidade, vergonha, exaustão, sexualidade, masculinidade, nossa relação com a tecnologia, o corpo obrigado a parecer sob controle o tempo todo.
Trato de coisas que na clínica aparecem quase sempre sem nome. Gente que não se reconhece mais nos personagens que precisa para viver. Quem não sabe mais o que quer, e quem quer o que acha que não devia. O homem que resolve tudo, menos aquilo. O brasileiro que sustenta uma versão funcional de si em outro idioma e outra solidão. Quem descobriu que desejo e vergonha, às vezes, moram na mesma casa.
Escrevo para quem desconfia da própria performance. Para quem já percebeu que funcionar bem não é a mesma coisa que estar bem. Para quem sente que certas palavras — foco, sucesso, autenticidade, maturidade, equilíbrio, produtividade — servem mais para organizar uma vitrine do que para nomear uma vida.
O olhar, na prática
A clínica atravessa esse olhar, não como tema de exposição, nem como promessa de resposta. Ela aparece no modo de escutar: prestar atenção ao que se repete, ao que endureceu, ao que não encontra nome, ao que uma pessoa sustenta sem perceber o quanto pesa. É esse mesmo olhar que levo para a psicoterapia online — a ideia não é corrigir uma versão de você, mas entender o que ela estava segurando antes de mexer em qualquer coisa.
Talvez seja isso que sustente o Zero de Artifício: ele não tenta consertar a vida pelo texto. Tenta abrir espaço para pensar aquilo que é sustentado como se fosse natural.
Por onde começar
Se quiser um ponto de partida, o primeiro texto da newsletter é o Antimanifesto — ele apresenta esse projeto tentando não se explicar demais, dizendo antes o que o Zero de Artifício recusa ser do que aquilo que promete. É uma porta de entrada razoável para quem quer entender o resto. Leia o Antimanifesto aqui →
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Geralmente aos domingos — nem sempre, entre alguns hiatos, às vezes mais, às vezes menos. Como a vida. Entre, leia um texto. Se fizer sentido, fique.

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