ESQUIZO O QUÊ?
- Marcelo Massano

- 6 de jul.
- 3 min de leitura
Entenda o que é esquizoanálise

Não, esquizoanálise não é terapia para esquizofrenia. Também não se trata de adotar a esquizofrenia como um estilo de vida, nem ter a psicose como ideal.
É uma abordagem clínica que investiga como uma pessoa foi levada a funcionar do jeito que funciona, e o que ainda pode se mover nisso.
O “esquizo”, aqui, vem de cisão, corte, divisão.
Foi daí que a dupla Gilles Deleuze, filósofo, e Félix Guattari, psicanalista, partiu nos anos 1970 para criar uma crítica radical à forma como a psicanálise explicava o sofrimento.
O “esquizo” serve como imagem de corte, desvio e ruptura para pensar o que acontece quando uma vida deixa de caber na novela que contaram sobre ela: a novela do pai, da mãe, da infância, da culpa, da falta, do trauma; o roteiro antigo tentando explicar todos os capítulos.
O que muda em relação a outras terapias
Em muitas clínicas, a pergunta é o que seu sintoma significa. Na esquizoanálise, a pergunta muda: para que ele serve?
Você diz: “não consigo dizer não”. A resposta que se ouve é “aprenda a impor limites”, algo que, provavelmente, você já sabia.
Saber, sozinho, não muda uma repetição.
A pergunta clínica é: que tipo de relação você aprendeu a manter dizendo sempre sim? Que medo aparece quando você frustra alguém? O que essa disponibilidade sustenta, e o que ela impede?
Uma culpa tem origem. Mas também tem função: mantém você ligado a alguma autoridade antiga, mesmo depois que ela devia ter perdido o poder sobre você. Uma independência pode ser liberdade, ou pode ser medo de precisar de alguém, disfarçado de força.
Isso não se resolve com autoajuda. Se entende olhando para a engrenagem.
O inconsciente não é um porão particular
Muita gente imagina o inconsciente como um porão: um lugar escuro onde se amontoam traumas, lembranças, medos antigos e desejos que a pessoa não sabe nomear.
Essa imagem não está totalmente errada. Mas é pequena.
A esquizoanálise olha também para esse porão, mas pergunta quem construiu a casa.
Nem tudo na vida se explica escavando os fatos da sua infância. A família importa, a infância importa, mas ninguém sofre fora do mundo. Vivemos num tempo que nos ensina a funcionar de um jeito rígido:
O homem que precisa dar conta de tudo sozinho.
A cobrança massacrante por desempenho e produtividade.
A moral herdada que dita o que é “ser forte” ou “bem-sucedido”.
A comparação permanente alimentada por telas e aparências.
Sua personalidade não veio só da sua infância ou dos valores que a sua família transmitiu. Você não inventou sozinho o cansaço de sustentar quem você aprendeu a ser.
Uma clínica que não conserta
Não existe um eu original, sem sinais de uso, esperando ser restaurado na sua “melhor versão”.
No atendimento, o trabalho é de desmontagem, não de reparo. Desmontar não é destruir; é olhar para cada peça da sua vida sem pressa:
A frieza que você chama de “personalidade” pode ser uma técnica de defesa.
A intensidade dramática pode ser controle disfarçado de paixão.
A culpa constante pode ser lealdade a alguém que já nem está mais na sua vida.
Saber disso racionalmente não muda nada sozinho.
Por isso, o trabalho pede tempo, repetição, escuta, corpo. Não sermão.
Para quem a esquizoanálise pode fazer sentido
Essa abordagem pode fazer sentido para:
Quem já ouviu “trabalhe sua autoestima” e sentiu que isso não tocava no problema real.
Homens em crise que não aguentam mais o peso de sustentar uma versão de si mesmos que nunca escolheram.
Quem repete o mesmo tipo de relação que machuca, sabe disso, e continua entrando nela.
Quem alcançou sucesso, mas percebe que a vida não acompanhou a imagem de sucesso.
A pergunta na mesa não é mais “o que há de errado comigo?”, mas “como você foi produzido para se sentir tão errado, e o que ainda pode se mover?”.
É nesse ponto que a terapia começa: não para corrigir uma pessoa defeituosa, mas para investigar como um modo de viver foi se tornando necessário, e como outros caminhos podem começar a existir.

Comentários